17 de mai de 2007

  • Rock em Rondônia, uma cena sem memória.

    Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada, cultura sem memória, não é cultura.
    Mas o que seria a memória segundo o pai dos burros (dicionário), é a capacidade de reter, recuperar, armazenar e evocar informações disponíveis, seja internamente, no cérebro (memória humana), seja externamente, em dispositivos artificiais (memória artificial). Memória, segundo diversos estudiosos, é a base do conhecimento. Como tal, deve ser trabalhada e estimulada. É através dela que damos significado ao cotidiano e acumulamos experiências para utilizar durante a vida.
    Pronto agora podemos falar da tal cena sem memória, poucos em Rondônia sabem que sempre tivemos uma cena bem promissora desde o inicio dos anos 90, mas como sempre, toda a potencialidade dos músicos de nosso estado, não foi explorada nem incentivada por órgãos ligados à cultura nem por empresas particulares.
    Esse embrião de cena sobreviveu fuçando as lixeiras da “cultura” rondoniense durante todo esse tempo, tocando em terrenos baldios, em prédios abandonados, na nostálgica Oficina do Rock e em casas de amigos, sobreviveu também graças a gana por cultura alternativa dos músicos e do público sempre fiel, fato este que é notado até hoje.
    Ora se temos tudo isso, ainda não existe necessidade de tecer esta crítica? Ledo engano precisamos sim de muito mais, precisamos de reconhecimento por parte dos órgãos que patrocinam a cultura, precisamos ter o respaldo da grande massa da população, para a partir dessa prerrogativa proporcionarmos as bandas do estado um status de músicos, de fomentadores da cultura urbana, da cultura amazônica. O Projeto Beradeiros busca hoje através da associação dos músicos um reconhecimento e uma profissionalização dos artistas que sempre viveram nas margens da cultura popular. Não podemos cometer os mesmo erros do passado, como é o caso célebre da banda DHC de Porto Velho.
    Formada no inicio de 1991, a banda, composta por Zezório guitarra, Rato Velho vocal, Cid guitarra, Van bateria e André no baixo, buscou produzir musicas de sua própria autoria, dando um salto gigantesco para a cena, simultaneamente os músicos da banda entravam em contato com produtores de musica independente do mundo todo, e não estou exagerando em dizer mundo todo. Em 1995 eles lançam uma demo intitulada “Mundo Animal” que é peça de colecionador hoje em dia, a demo teve suas cópias feitas pelos próprios integrantes da banda em fitas K-7 e enviadas via correio para diversos lugares do Brasil e do mundo. Não demorou muito e os frutos começaram as ser colhidos. Primeiramente o reconhecimento do publico de Porto Velho, que lotava todos os shows da banda e que hoje lembram com nostalgia a época de ouro do Hardcore rondoniense, em seguida o reconhecimento dos incentivadores nacionais do estilo, à banda foi noticiada em Zines de todas as regiões do País, e posteriormente o reconhecimento mundial da banda. Em 1997 a banda recebe um convite da longínqua Holanda para participar da coletânea de hardcore com letras cantadas na língua sem pátria, o ESPERANTO, obviamente que de imediato a banda entrou em estúdio e gravou mais duas músicas novas e enviou para a gravadora, essa coletânea também é peça de colecionador, e isso não foi tudo, quando a coletânea sai o guitarrista da banda Cid, vai a convite de produtores divulgar a banda na Europa, passou 6 meses em vários Países como Inglaterra, Holanda, Finlândia, Suécia. Voltou para Rondônia pronto pra viajar com a banda, e mais uma vez a falta de apoio deu um banho de água fria na cena, a falta de um reconhecimento de órgãos culturais e da grande massa da população apagou a cena quase que irremediavelmente, mas isso eu tratarei no próximo texto. Fica aqui o apelo a todos que se envolvem com a cena, vamos lutar para que nunca mais o caso da DHC se repita, e a saga desta banda não seja nunca esquecida.


    Giovanni Marini

    Giovanni é vocalista da banda COVEIROS
    E faz parte da produção de vários festivais
    (BERADEIROS, GRITO DO ROCK PVH E OUTROS)
    Além de ser uma figurinha carimbada
    Também estará colaborando com agente

2 comentários:

luapsi disse...

Texto que elucidou de forma realista os sentimentos de quem vive e luta pela cena do rock local, com destaque para o exemplo da banda DHC que teve repercusão internacional, mas que sofreu com o desestímulo encontrado em sua cidade de origem, reflexo, do pouco investimento e a forma como os possíveis patrocinadores lidam com a cultura neste Estado e se observarmos bem, no Brasil.
Obrigada
Luana Vilas Bôas.

D.H.C. disse...

é isso, a cena não morreu...apoie o underground